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Divulgue sua dissertação: Como o ambiente pode influenciar a densidade local de lagartos em savanas?

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    PPGBEES
  • 21 de fev. de 2021
  • 5 min de leitura

Qual o problema da pesquisa?

Lagartos podem viver em diversos tipos de ambientes, como savanas, florestas alagáveis e não alagáveis, desertos e áreas urbanizadas. As espécies desse grupo mostram uma grande variedade de formas, cores e tamanhos corpóreos ao longo de sua ampla distribuição que ocupa quase todo o globo terrestre, com exceção dos polos. A ausência nos polos da Terra é explicada por limitações fisiológicas impostas pelo frio extremo, uma vez que esses animais precisam de fontes externas de calor para desempenhar suas atividades primordiais como comer, fugir de predadores e reproduzir. Embora algumas espécies sejam altamente tolerantes a amplitudes térmicas (intervalo entre temperatura mínima e máxima) relativamente grandes, outras são muito mais sensíveis a variações termais, podendo deixar de ocupar locais termalmente inadequados. A qualidade termal de hábitats geralmente não é homogênea ao longo de paisagens naturais, mas dependente da cobertura vegetal e da altitude, as quais variam muito. Portanto, podemos esperar que a densidade de lagartos (número de indivíduos por unidade de área) também não seja homogênea, mas varie ao longo de mosaicos de hábitats mais ou menos adequados (Figura 1).


Figura. 1. Curva de desempenho teórico representando uma espécie hipotética sendo filtrada ao longo de um gradiente ambiental. Na faixa ótima onde a espécie atinge seu desempenho máximo, a densidade é maior, já nos limites da distribuição essa métrica é reduzida até chegar a zero nas faixas intoleráveis.



Savanas diferem consideravelmente de florestas por serem ambientes abertos, muito ensolarados e quentes. Em imagens de satélite savanas são facilmente distinguíveis de florestas, mas a variação ambiental dentro de savanas geralmente não é óbvia. Saber o quanto a temperatura e a cobertura vegetal mudam ao longo de savanas geralmente depende de medir essas variáveis localmente em campo. Essa abordagem pode revelar muita variação espacial na abundância de árvores, arbustos, capins e solo exposto, e, portanto, é muito mais eficiente que imagens de satélite para quantificar a variação ambiental dentro de savanas. Isso é relevante, porque as espécies residentes de savanas precisam ser bem adaptadas ao estresse hídrico e termal, e por isso savanas contêm biodiversidade única, diferente das florestas adjacentes. Biodiversidade única é um ótimo critério para definir savanas como ecossistemas de alta relevância para conservação.

Entre os mais variados tipos de animais e plantas que ocorrem nas savanas amazônicas, os lagartos são um dos grupos mais abundantes e disseminados. Algumas manchas de savana podem abrigar até 15 espécies distribuídas nos mais variados habitats. Os lagartos do gênero Cnemidophorus (conhecidos popularmente como calangos listrados, Figura 2a) são uns dos mais abundantes e facilmente detectáveis devido à necessidade de forragearem ativamente em busca de alimentos e sítios para termorregulação, como cupinzeiros e arbustos, por exemplo. Como as savanas são ecossistemas que normalmente possuem temperaturas mais elevadas, a presença desses locais para perda de calor corporal pode ser determinante para os lagartos na seleção de hábitat.


Como a pesquisa foi realizada?

Sob a orientação dos herpetólogos Rafael de Fraga (Doutor em Ecologia) e Alfredo Santos-Jr (Doutor em Zoologia), o biólogo Lourival Vasconcelos Neto, acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e responsável pela pesquisa, estudou uma população de Cnemidophorus cryptus (Figura 2a) em savanas Amazônicas, com o objetivo de testar a hipótese de que as densidades de lagartos são limitadas por alterações locais na qualidade de hábitats. Essa hipótese é baseada na ideia de que as variações locais nas características desses ambientes de savana promovem mosaicos com diferentes qualidades e, por isso, os lagartos tendem a ser filtrados (estar em baixa densidade ou mesmo ausentes) em locais com condições adversas. O estudo foi conduzido no Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA, Figura 2b), uma Unidade de Conservação estadual com área de 3.678 ha, situada no município de Monte Alegre – PA, ao norte do Rio Amazonas, sendo uma das poucas reservas destinadas à conservação de áreas de savana na Amazônia (Figura 2c).

A pesquisa consistiu em coletar dados sobre a densidade de indivíduos (número de lagartos em parcelas de 250 x 6 m), seguindo o protocolo RAPELD (ver sugestões de leitura) para definir o eixo central de parcelas de amostragem seguindo as curvas de nível naturais do terreno. Os locais selecionados para a coleta (Figura 2b) de dados abrangeram hábitats com variação nas configurações do estrato vegetal, altitude, temperatura e disponibilidade de sítios para termorregulação e alimentação. O objetivo é investigar se essas variáveis ambientais podem influenciar na densidade local de C. cryptus.



Figura 2: Informações gerais sobre o estudo no Parque Estadual Monte Alegre: a = exemplar de Cnemidophorus cryptus; b = mapa da área de estudo com os locais de coleta de dados representados pelos círculos verdes e a densidade de lagartos pelo tamanho do círculo; C = tipo vegetacional predominante nas savanas amazônicas.


Qual a importância da pesquisa?

Como principal resultado, os pesquisadores evidenciaram que a distribuição espacial dos lagartos na área estudada não é aleatória, e que a heterogeneidade ambiental das savanas amazônicas é determinante para a estruturação espacial da população de C. cryptus. De acordo com as análises estatísticas realizadas, a proporção de arbustos, altitude, temperatura e número de cupinzeiros são atributos do habitat responsáveis por promover modificação espacial na densidade local de lagartos. Em locais com mais arbustos e cupinzeiros, a densidade de lagartos é maior, porque ambas as variáveis definem a disponibilidade de refúgios contra as altas temperaturas nas horas mais quentes do dia, e a disponibilidade de refúgios contra predadores. Em locais com temperaturas elevadas a densidade é menor, porque calor excessivo limita os processos fisiológicos e metabólicos de ectotérmicos como lagartos. A altitude também foi uma variável importante, embora tenha influenciado a densidade de lagartos indiretamente, porque gradientes altitudinais promovem variação espacial em diversas características do ambiente, como variação na cobertura vegetal, por exemplo, podendo configurar alterações na qualidade termal de hábitats disponíveis em diferentes cotas altimétricas. Além disso, a pesquisa evidenciou, também, que as variáveis podem interagir e influenciar a distribuição dos indivíduos. Especificamente, foi observado que sob condições de alta temperatura os efeitos da altitude sobre a densidade dessa espécie de lagarto são relativamente fracos. Ao contrário, em locais que mostraram temperaturas mais amenas, os efeitos negativos da altitude na densidade de lagartos foram fortes.

Esse resultado geral é relevante para a ecologia e conservação de populações naturais, pois fornece informações sobre mecanismos e processos que determinam a distribuição local dos indivíduos. Por exemplo, é possível argumentar que a escolha de uma área para conservação dessa espécie deve abranger locais heterogêneos, uma vez que a estrutura espacial da população depende da interação entre variáveis ambientais para garantir a disponibilidade locais adequados para a termorregulação. Apesar de que diversas pesquisas nas florestas Amazônicas evidenciaram respostas significativas de diferentes espécies de animais e plantas à variação ambiental, poucos estudos tiveram como foco os organismos que ocorrem nas áreas de savana. De modo geral, savanas têm sido negligenciadas pelas ciências naturais, a despeito do fato de serem ecossistemas regionalmente raros, e biologicamente complementares às florestas adjacentes.


Autores

Lourival Baía de Vasconcelos Neto1,2,*; Pedro Henrique Salomão Ganança1,2; Alfredo Pedroso dos Santos Júnior1,2 e Rafael de Fraga2,3


Filiações

1 Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade, Universidade Federal do Oeste do Pará, Santarém, Brasil;

2 Laboratório de Ecologia e Comportamento Animal, Universidade Federal do Oeste do Pará, Santarém, Brasil

3 Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia, Universidade Federal do Oeste do Pará, Santarém, Brasil.

* Autor para correspondência: vasconcelosnetobio@hotmail.com


Financiamento

Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA);

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).


Sugestão de leitura

Avila-Pires TC, Hoogmoed MS, Vitt LJ. 2007. Herpetofauna da Amazônia. In: Herpetologia no Brasil II. Belo Horizonte: Sociedade Brasileira de Herpetologia. Pp 13-43.

Carvalho WD, Mustin K. 2017. The highly threatened and little known Amazonian savannahs. Nature Ecology and Evolution 1: 100.

Magnusson WE. et al. 2013. Biodiversidade e Monitoramento Ambiental Integrado. Ed. Áttema Editorial. Manaus, AM.

Pianka ER, Vitt LJ. 2003. Lizards: windows to the evolution of diversity. 5. Ed. University of California Press.


 
 
 

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